Leishmaniose tem tratamento, mas medicamento é proibido no Brasil

Enquanto na Europa os cães infectados são cuidados com um remédio específico, por aqui, os donos de animais de estimação são proibidos de importar o produto, e acabam com o bichinho sacrificado
leishmaniose-tem-tratamento-mas-medicamento-e-proibido-no-brasil 14 de abril de 2015

O médico veterinário Leonardo Maciel é um dos precursores do tratamento para a leishmaniose no Brasil

Apesar de o tratamento para a leishmaniose visceral canina ser permitido na Europa e em vários outros país do mundo, no Brasil, a discussão é antiga, e provoca polêmicas. Segundo a liminar Nº 677, expedida em outubro de 2013, pelo Supremo Tribunal Federal, os proprietários de cães infectados pela doença têm o direito de tratá-los. No entanto, uma portaria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), diz que o procedimento não pode ser feito com medicamento humano, nem com produto importado. Essas são as únicas formas de cuidar do animal doente.  “Esses medicamentos não estão disponíveis no país. E não podem ser importados por não serem registrados no MAPA. Portanto, a portaria é totalmente contraditória”, explica o advogado Arildo Carneiro Junior, da ACJ dvocacia e Consultoria Jurídica.

Diante de tantas controvérsias, em janeiro de 2013, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região negou a vigência da portaria do MAPA, em resposta a uma ação movida pela ONG Abrigo dos Bichos, do Mato Grosso do Sul. “Com esse entendimento do tribunal, o tratamento pode ser feito através de autorização judicial, já que há precedentes”, explica o advogado. Segundo ele, a maior conquista, no entanto, é que os animais contaminados não podem mais ser recolhidos e sacrificados pelos centros de controle de zoonoses das cidades. “Desde que o proprietário tenha interesse em tratar o animal, ele tem o direito de buscar todos os recursos para fazê-lo”.

O que muitos desconhecem é que os verdadeiros vilões da doença, que afeta tanto humanos quanto animais, não são os cães, mas sim, o mosquito-palha. De difícil combate, ele se reproduz em locais onde existe abundância de material orgânico, como folhas, frutos, fezes de animais, entulhos e lixo. Além disso, ele é hemofágico, e se alimenta do sangue de humanos e animais, incluindo galinha, porco e cavalo. A doença também é transmitida de humano para humano. Para isto, basta que o mosquito infecte alguém e, em seguida, pique outra pessoa.

Proibido no Brasil, o medicamento Glucantime, produzido na França, traz impresso em seu verso a informação de que é destinado ao tratamento de leishmaniose canina.

Proibido no Brasil, o medicamento Glucantime, produzido na França, traz impresso em seu verso a informação de que é destinado ao tratamento de leishmaniose canina.

No Brasil, a grande discussão, no entanto, gira em torno do sacrífico dos cães infectados e não exatamente do combate efetivo ao vetor. “Os cães são o reservatório para que a infecção se perpetue e, mesmo após o tratamento, continuam sendo fonte de transmissão”, diz o médico epidemiologista Unaí Tupinambás. Em contrapartida, a eutanásia é contestada por especialistas que garantem que a matança de cães não diminui o índice de contágio da leishmaniose. E afirmam que, dos 88 países do mundo onde a doença é endêmica, o Brasil é o único que utiliza a morte dos cães como instrumento de saúde pública.

“A leishmaniose visceral tem controle, tem tratamento eficaz e, portanto, não é necessário fazer a eutanásia do animal, exceto em casos específicos”, explica o veterinário Leonardo Maciel, da clínica Animal Center. Precursor do tratamento da leishmaniose visceral canina em Belo Horizonte, há 20 anos o médico estuda a enfermidade e garante que a campanha feita pelo poder público incentivando o sacrifício dos cães contaminados, como forma de controlar a endemia, surtiu efeito contrário. “O tiro saiu pela culatra. A campanha foi totalmente ineficaz e provocou pânico na população. Hoje, nossa cidade é uma das que mais sofrem com a doença no Brasil. Isso porque inúmeros animais foram abandonados nas ruas, sendo contaminados e se tornando transmissores, e, ao mesmo tempo, se reproduzindo”.

Como o vetor da doença permanece presente nos ambientes não dedetizados, os novos cães adquiridos para suprir a falta dos que foram perdidos acabam sendo contaminados, e, consequentemente sacrificados ou abandonados. “Definitivamente, o problema da leishmaniose não é o cão, e sim o mosquito”, afirma Maciel.

Enquanto a importação de medicamentos veterinários como o Glucantime – indicado para o tratamento da leishmaniose canina – não é liberada, os proprietários seguem fazendo de tudo para salvar seus animais de estimação.  “A doença é um tabu que precisa ser quebrado. Se é para combater algo, vamos combater sua origem, que é o mosquito-palha”, diz a empresária Márcia Resende Carvalho. Em 2003, a empresária comprou uma briga com o poder público para poder tratar o poodle Nicolau. “Lutei muito para que ele não fosse sacrificado, e consegui. Ele viveu bem por muitos anos até falecer por outros motivos. Temos o direito de tratar nossos animais”.

A empresária Márcia Resende Carvalho enfrentou as autoridades para tratar um animal, que viveu mais tempo que o previsto.

A empresária Márcia Resende Carvalho enfrentou as autoridades para tratar um animal, que viveu mais tempo que o previsto.

Fique por dentro

  • Leishmaniose – também conhecida como calazar, a contaminação em seres humanos e animais ocorre através da picada da fêmea do mosquito Lutzomyialongipalpis, mais conhecido como mosquito-palha ou birigui
  • Sintomas no ser humano – febre prolongada, perda de peso, falta de apetite e aumento do fígado e baço. Se não tratada a tempo, a leishmaniose visceral tem alto índice de mortalidade em pacientes imunodeficientes portadores de doenças crônicas
  • Sintomas no cão – lesões de pele, perda de peso, descamações, crescimento exagerado das unhas e dificuldade de locomoção. No estágio avançado, o mal atinge fígado, baço e rins, levando o animal ao óbito

Prevenção

  • Fazer a retirada de qualquer tipo de material orgânico como folhas, fezes de animais, entulhos e lixo, onde o mosquito possa se reproduzir. A borrifação química é fundamental em áreas endêmicas
  • Uso de repelentes, coleira própria contra a leishmaniose, vacina específica, higienização do animal e do ambiente
  • A vacina Leishmune, aliada a outros métodos preventivos, reduz a chance de contaminação do animal e enfraquece o protozoário em cães já contaminados, diminuindo a chance de transmissão

Tratamento

O custo médio do tratamento é de R$ 1 mil, variando de acordo com o peso do animal. Inclui sessões de quimioterapia, feita por meio de medicação venal aplicada através de soro, e medicação oral. Exige o comprometimento do proprietário em seguir as orientações veterinárias à risca, com realização de checape periódico e manutenção de alimentação específica com baixo teor de proteína.

 

Fonte: Revista Encontro

13 Comentários

  1. 16 de abril de 2015 às 23:32

    Ótima matéria… parabens…. vamos lutar pelo nossos bichos!

    • 17 de abril de 2015 às 00:29

      Precisamos lutar para mudar esta situação! Obrigado pela participação. 😉

  2. 17 de abril de 2015 às 00:13

    tive uma cachorrinha diagnosticada aos 3 anos de idade, fiz o tratamento e ela viveu muito bem até os 13 anos!

  3. 17 de abril de 2015 às 00:51

    Infelizmente continuamos na luta para que nossos cães possam ser tratados decentemente no Brasil. Precisamos que a ANVISA libere as drogas no Pais. É simplesmente absurdo ter como tratar e ficar aqui nos sujeitando a atuar de maneira ilegal, tentando conseguir medicamentos trazidos por quem viaja ao exterior. ACORDA ANVISA! QUEREMOS AGIR DENTRO DA LEI!

  4. 18 de abril de 2015 às 11:24

    Tenho uma cadela com a doença e estou fazendo o tratamento,mas estou com medo pois onde eu moro é o foco do mosquito, mesmo ela usando a coleira e meu terreiro sendo detetizafo tenho tem chance do mosquito picar ela de novo e me picar?

    • 27 de abril de 2015 às 05:08

      Olá, Valéria!
      A situação realmente não é favorável, e as chances de você ser contaminada é muito grande. O ideal é entrar em contato com a prefeitura para que ela possa ir a seu bairro e oferecer serviços de erradicação da doença.

  5. 12 de maio de 2015 às 00:47

    Gostaria de saber qual a dose usada de glucantime para tratar um cachorro com 8,5 kg, lembrando que a dose deve ser em mg/kg/dia e qual o tempo de tratamento to?

  6. 17 de julho de 2015 às 00:37

    Olá!
    Deste assunto eu tenho verdadeiro ‘horror de comentar de pensar quantos cães foram sacrificados em massa por causa de politicagem e outros motivos vergonhosos que o nosso país (aliaz não queria que fosse o meu estou cançada de ouvir e ver coisas horríveis desse país. Minha filha mora na Suíssa,vou tentar comprar la sera que além de tudo vou ter que esconder como se fosse uma droga?

  7. 25 de janeiro de 2016 às 11:34

    Bom dia. Eu e minha mãe estamos com uma cadela que foi resgatada e está no início da doença. Estamos temporariamente com ela, pois moramos em apartamento e temos uma cadela. Eu gostaria de saber se esses R$1000,00 mensais são com o uso so medicamento importado. Fico preocupada com a adoção dela devido ao alto custo.

  8. 7 de julho de 2016 às 19:25

    Ola, ela fez o tratamento e encontrou a cura ou o medicamento tinha que ser tomado periodicamente? qual o tratamento?

  9. 28 de julho de 2016 às 13:43

    Olá, poderiam me auxiliar, quais desses remédios seria o melhor, e como funcionam?
    Sei que é oral e injetável, o tratamento dura aproximadamente 28 dias e é aplicado uma única vez ..agradeço, obrigado!

  10. 5 de setembro de 2016 às 13:37

    Acabei de descobrir que a minha cadelinha está com essa doença. Alguem pode me ajudar, pois sacrificar será a segunda opção pra mim, vou tentar resgatá-la. Whats: 85-99610 2794

  11. obrig

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